Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Crónicas do Quintal

Blog sobre o que se vai passando neste nosso "quintal"

Blog sobre o que se vai passando neste nosso "quintal"

Crónicas do Quintal

Pessoas que gostam disto

21
Mai18

HOJE JOGO EU

João Mateus

Vemos, ouvimos e lemos

Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos

Não podemos ignorar

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

A semana passada, após os horríveis acontecimentos de Alcochete, foi posta a circular nalguns jornais e televisões a notícia de “que, segundo fonte próxima ao chefe de Estado, “foi deliberada para ter margem de manobra” para decidir mediante a presença, ou não, de Bruno de Carvalho na tribunal presidencial do estádio do Jamor. Situação que “não é do inteiro agrado do Presidente” e “poderia ser um incómodo”, depois dos acontecimentos dos últimos dias, nomeadamente as agressões a futebolistas e membros da equipa técnica por parte de um grupo de cerca de 50 adeptos na Academia de Alcochete."".

Logo nessa altura, escrevi no Facebook “Eu não acredito que não queira sentar-se ao lado do Presidente eleito do Sporting Clube de Portugal! “

Acontece que, depois do anuncio da não presença de Bruno de Carvalho, o Presidente da República não só anunciou a sua presença como veio a estar presente.

Por esse motivo devo dizer ao Senhor Presidente da República que tal como eu, que não votei nele, nem concordo com o seu estilo de presidência por o achar populista, também ele vai ter que “aturar” o Presidente eleito do Sporting enquanto os sportinguistas não acharem que o devem demitir ou ele próprio resolva fazê-lo.

Pelo mesmo motivo devo dizer que o mesmo procedimento deve ter o Presidente da Assembleia da República e, se o Dr. Ferro Rodrigues, como Sportinguista tinha todo o direito de dizer o que disse, ou ainda mais sobre o Presidente eleito do Sporting , nunca o poderia ter feito na qualidade de Presidente da Assembleia da República.

Por último quero ainda dizer-vos que, se já no tempo do fascismo era contra a presença destas entidades em acontecimentos desportivos, não é por agora vivermos num regime democrático que mudei de opinião, mas isto é uma questão de princípio, não uma questão de maré!

 

 

17
Out17

Os incêndios em Portugal

João Mateus

incendios.jpg

 

Agora que tudo parece mais calmo e já estamos em Outubro, vou finalmente, também eu falar de incêndios.

 

Em primeiro lugar porque há (mais) incêndios:

 

  • Incêndios sempre houve, quer por causas naturais ou provocado pelo homem, sejam por negligência sejam deliberados (e não se pense que apenas por mão criminosa pois desde há muito que se provocam queimadas quer para limpar os lixos que se formam na terra quer, muitas vezes para queimar os detritos que resultam da limpeza das matas)

  • Porque o interior deixou de ser habitado e logo, deixou de haver hortas que, à partida tornam a progressão do fogo mais lenta, deixou de haver rebanhos que necessitavam de pastagens, deixou de haver lareiras para queimar os resíduos das limpezas que passaram, muitas vezes, a ficar nos terrenos sem que lhe fosse dado qualquer destino

  • Porque se plantaram árvores que não são resistentes aos fogos e muitas vezes sem qualquer ordenamento, isto é, em cima das estradas e das localidades e,outras vezes, até se construiram casas no meio das matas

  • Porque há mais ocupação dos espaços das matas por pessoas que desconhecem os cuidados a ter quando quando nelas se permanece ou quando por elas se circula

  • Porque o aquecimento global, ao contrário do que diz o nosso “amigo” Trump, é mesmo um facto e as estações do ano deixaram de ser o que eram e as temperaturas elevadas deixaram de existir apenas no período de verão

 

Pelo que fica dito, acho que todos acabamos por compreender que existam mais fogos, mas o que espanta é, sem dúvida o número de ignições e e área ardida.

 

Tentemos então perceber porque acontecem:

 

  1. No que diz respeito às ignições, não tenho dúvidas que na sua esmagadora maioria está a mão humana, fazendo queimadas não programadas e quando as condições atmosféricas o não aconselham, fazendo fogueiras em locais onde não deviam ser feitas, lançando pontas de cigarro de carros em andamento, lançando fogo por vingança ou qualquer outro motivo, etc. embora por vezes possam, como aconteceu em Pedrógão existir outras razões

  2. Já no que diz respeito à sua propagação sem dúvida que o factor número um é mesmo o facto de não existirem pessoas no campo, quer em número suficiente quer pela sua idade, para poderem apagar o incêndio quando do seu inicio ou, pelo menos, combatê-lo até chegarem os bombeiros. Isto era o que se fazia antigamente, agora por vezes até as que existem, limitam-se a assistir e até a filmar como ainda ontem se viu numa televisão.

  3. Por outro lado, no que diz respeito aos meios de combate disponíveis parece que, no que diz respeito aos meios terrestres (corpos de bombeiros) não só não aumentaram de acordo com as necessidades (ver aqui https://www.pordata.pt/Portugal/Corpos+de+Bombeiros-1107) como baseando-se sobretudo no voluntariado e conhecendo a propensão das pessoas de hoje para o voluntariado, não tenho dúvidas que o número de elementos é, capaz de até ter diminuído. Depois há os meios aéreos que têm que ser alugados e dependem não só da sua existência como da existência de disponibilidade financeira para o fazer. Quer num caso quer noutro, há ainda a questão da programação do pico da sua utilização estar “programada” de acordo com condições atmosféricas típicas do verão que hoje já não são exclusivas dessa altura,

 

O que fica dito, é do conhecimento de todos e não tenho dúvidas nenhumas também dos sucessivos governos, e não eram precisas comissões independentes para “descobrir” o óbvio!

 

Porque não agiram então, até agora sobre o assunto?

 

  • Alguns por uma questão ideológica que não permite que o Estado meta o nariz em certos assuntos

  • Outros porque, em Portugal; é extremamente difícil meter-se com a propriedade privada (sobretudo com a pequena propriedade) e o que há a fazer tem muito com essa área (em último caso será preciso expropriar quem não cuidando das matas prejudica os que lhe estão próximos)

  • Uns e outros porque, obrigados a cumprir as metas impostas por Bruxelas sabem que, dificilmente terão as disponibilidades financeiras necessárias para levar a cabo o que é preciso fazer.

 

 

 

 

10
Out17

HOJE VAMOS FALAR DE POLÍTICA A SÉRIO!

João Mateus

Para que não haja confusões devo, desde já dizer que, para mim, o PSD sempre foi um partido liberal e o PS o verdadeiro partido social-democrata.

 

Por este motivo, sempre foi para mim preferível um governo PS a um governo PSD, sózinho ou acompanhado.

 

Assim, nas eleições de 2015, apesar de ser o que se pode considerar um eleitor da área do Bloco de Esquerda (situo-me nesta área desde os tempos da UDP), votei PS porque, na dúvida em relação à votação no Bloco naquelas eleições, era o partido que mais garantias me dava de poder ter uma votação de permitisse correr com Passos Coelho e a PAF do governo!

 

Foi esta a segunda vez que o fiz, pois a primeira acontecera quando foi necessário correr com Cavaco!

 

Confesso também que nunca me preocupei em ler o programa do PS para aquelas eleições, pois quando voto, mais do que em programas guio-me sobretudo pelos objectivos estratégicos. Por outro lado, porque acompanhei atentamente a actuação de António Costa quer na CML quer na Quadradatura do Círculo, conhecia bem quer as suas ideias quer a sua forma de actuar (confesso que, se fosse Seguro o candidato do PS, apesar do que disse no inicio, porque considero que a sua actuação como Secretário Geral do PS, nada teve a ver com a social-democracia, nunca nele teria votado!).

 

Depois das eleições, com os resultados das mesmas e com as atitudes dos partidos da esquerda vi, com grande alegria que, finalmente, poderia ser levada a cabo em Portugal a experiência que sempre defendi, isto é um governo efectivamente de esquerda (devo confessar que não era bem esta experiência que aguardava pois sempre defendi que esse governo integrasse elementos de todos os partidos que o apoiavam, mas no momento e condições actuais, permanência no UE e no Euro, seria talvez a única possível).

 

Devo dizer que, se calhar ao contrário de muitos, o que eu esperava deste governo não era apenas a reposição do que existia antes do governo da PAF mas também o levar a cabo uma política que permitisse levar a cabo uma verdadeira política de esquerda que até aí nunca existira em Portugal, pois a que tem estado em vigor desde o 25 de Novembro resulta, sobretudo, dos entendimentos entre o PSD e o PS portanto uma política de centro-direita.

 

Acontece que, após dois anos de vida deste governo (que seriam o prazo que julgaria razoável para ser reposta a situação anterior ao “desgoverno” da PAF) e com as negociações para o orçamento de 2018 é com grande preocupação que assisto ao que daí poderá resultar, isto é, assistir a que as “recuperações” no que diz respeito, por exemplo, às progressões e à reestruturação das carreiras não sejam para todos ao mesmo tempo mas sim, e sobretudo, primeiro para aquelas classes que têm mais poder reinvidicativo, como são, por exemplo, os polícias (por motivos óbvios) os juízes, os médicos, os enfermeiros e os professores, e mesmo no plano fiscal, no que diz respeito ao IRS é ainda, e tão só uma reposição dos escalões que existiam antes, em prejuízo de uma reforma de fundo que inclua o englobamento de todos os rendimentos e faça pagar aqueles que hoje, por qualquer motivo, “fogem” ao mesmo!

 

Para já, fico-me por aqui, mas prometo voltar ao assunto, próximamente!

 

 

 

 

14
Set17

OU HÁ MORALIDADE OU COMEM TODOS

João Mateus

 

A greve deve ser um direito inalienável para todos os trabalhadores, portanto só eles e as entidades patronais devem decidir da sua justiça!

 

É exactamente por pensar assim que às greves de grupos de trabalhadores da administração pública (médicos, enfermeiros, professores, policias, juizes, etc, que normalmente nunca alinham quando as greves são gerais) , que o governo, ao qual cabe defender todos os trabalhadores deve analisar estas lutas, não podendo ceder a uns que têm maior poder reinvidicativo em prejuízo dos que o não têm.

 

Para mim, ou há moralidade ou comem todos, enquanto não houver dinheiro para, para todos, descongelar as promoções, as progressões nas carreiras, a reorganização das carreiras, o horário das trinta e cinco horas...então devem comer todos!

 

08
Set17

A ESCRAVATURA MODERNA

João Mateus

 

 Uma das coisas que me custa mais a compreender no Portugal de hoje, militante empenhado que fui para que existissem em Portugal uma sociedade onde os direitos dos trabalhadores fossem reconhecidos, quer no que diz respeito à remuneração digna do trabalho, quer nos tempos de descanso e lazer é a ESCRAVATURA consentida que se instalou na nossa sociedade, onde os horários de trabalho apenas existem para as horas de entrada, onde se trabalha aos fins-de-semana e feriados, mesmo em actividades onde isso não se justifica, ficando sem tempo para a família e para o lazer, onde o trabalho parece ser um fim e não um meio.

Uma das virtudes do trabalho é o que, tendo-o, ele pode proporcionar exactamente no que diz respeito preenchimento das necessidades básicas (habitação, saúde, educação, etc) mas também ao lazer e ao prazer e de que serve até ganhar muito se depois não se tem tempo para o gastar?

Por outro lado, mesmo para satisfazer as necessidades básicas, o trabalho tem que ter uma certa estabilidade e a precariedade a que assistimos, não permite a que se possa constituir família ter uma casa e ter filhos etc, etc.

Por fim, ainda assistimos a que, quando alguém luta para, pelo menos manter o que tem, como acontece com os trabalhadores da Auto Europa, ainda seja criticado até pelos outros trabalhadores.

 

Como foi possível deixarmo-nos chegar a este ponto?

 

03
Jul17

RESPONSABILIDADE POLÍTICA EXIGE-SE!

João Mateus

 

Em primeiro lugar devo dizer que sempre fui um defensor de um governo igual ou parecido ao que actualmente existe em Portugal, isto é um governo de maioria PS, com a participação ou com o apoio da área do que agora é o Bloco e do PCP.

 

Por este motivo, sempre votei na UDP e no Bloco, com excepção de duas vezes em que votei PS (Guterres e António Costa), uma vez para tirar de lá o Cavaco e outra para acabar com o governo de Passos e Portas.

 

Assim, devo dizer que julgo que faço parte de um reduzido grupo de portugueses que, de consciência tranquila, pode perfeitamente reclamar de tudo o que tem sido feito depois do 25 de Novembro.

 

De facto os sucessivos governos de PS, PSD e CDS são, sem dúvida, os grandes responsáveis por tudo o que se tem passado neste período onde o aparelho de Estado tem sido consecutivamente delapidado dos meios necessários para garantir o trabalho e a reforma, a saúde, a educação, a justiça e, constatacta-se agora, que mesmo a segurança do País.

 

Em tudo isto não posso deixar de considerar também o papel da CEE (depois UE) e do Euro, que nos impediram de utilizar os meios disponíveis não para nos desenvolvermos como país pobre que nos tornámos mas de acordo com padrões pedidos por países já muito mais desenvolvidos que nós.

 

Por tudo o que fica dito o que espero deste governo é que saiba inverter este caminho e tomar as medidas políticas necessárias para inverter este caminho pois, de contrário ficará, para mim, demonstrada a inutilidade de um governo com este cariz.

 

Por último quero declarar que, quando me refiro a responsabilidade política não me refiro a que este ou aquele ministro seja demitido, mas sim a tomada de todas as medidas necessárias para inverter a política que tem sido seguida até agora, que não poderão ser tomadas numa legislatura mas que já é mais do que tempo de começar a serem levadas a cabo.

 

23
Jun17

EU, PECADOR, ME CONFESSO!

João Mateus

IMG_20140803_151852.jpg

 

 

Esta coisa dos incêndios sempre me tem feito pensar muito porque é que as coisas hoje em dia são assim, e depois da tragédia de Pedrógão fez-me pensar ainda mais.

 

De facto, antigamente, as coisas eram diferentes porquê? Em primeiro lugar, se calhar porque havia menos floresta, depois porque havia mais pessoas e pessoas com outro espírito, isto é as pessoas eram os primeiros bombeiros, muitas vezes os únicos.

 

E hoje é precisamente no problema da falta de pessoas no campo que me quero focar.

 

Não tenho dúvidas que a minha geração foi, sem dúvida a iniciadora do grande êxodo dos campos para o litoral e para a emigração!

 

E porquê? Porque na aldeia só existia trabalho na agricultura e, mesmo esse, não era para todo o ano (alguma industrialização apenas existia ainda na cintura industrial de Lisboa).

 

A emigração teve a ver além deste factor com o surgimento da guerra colonial e, aos que procuravam melhor vida, juntaram-se aqueles que dela queriam fugir.

 

Antes do 25 de Abril, a vida na terra para os pobres era uma autêntica miséria, principalmente no Alentejo onde predominava o latifúndio, começava-se a trabalhar cedo, na minha geração mal se acabava a escola , mas na geração dos meus pais muitos nem a chegaram a completar e começaram a trabalhar com sete e oito anos, sendo a alimentação a única remuneração a que se tinha direito.

 

Tudo isto para dizer que, ao contrário do que muitas vezes se quer fazer crer a fuga do interior para o litoral não começou depois do 25 de Abril, mas muito antes e, eventualmente, por o mesmo não ter acontecido muito mais cedo.

 

Quando partimos a ideia de muitos de nós era um dia “voltar à terra” e comprar uma casa onde pudéssemos passar uma velhice descansada.

 

Acontece que depois vieram os filhos que, mesmo na cidade, não arranjavam um emprego que lhes permitisse ter a vida que nós tivemos (graças ao 25 de Abril) e para os poder acompanhar e ajudar nós fomos ficando...ficando e depois vieram os netos e a maioria de nós, mesmo os que na terra compraram a casa sonhada, acabaram por ir ficando.

 

Para se compreender o fenómeno da desertificação do interior é preciso, portanto, ir muito mais longe que analisar o que se passou antes do 25 de Abril quer com os governo fascista quer com os anteriores que nada fizeram para desenvolver o país.

 

É certo que depois do 25 de Abril se foram fechando serviços mas isso aconteceu porque deixaram de existir pessoas para acorreram aos mesmos.

 

Hoje pensa-se que, recriando-os se atrairão de novo as pessoas mas eu penso que só o contrário fará com que aconteça, isto é, só quando houver pessoas é que os serviços voltarão e, quanto a isso eu estou muito pessimista, pois enquanto nós viemos à procura do emprego onde o havia na altura hoje prefere-se ficar mesmo onde ele não existe.

 

21
Mar17

"Tão felizes que nós éramos" - (Clara Ferreira Alves, in Expresso, 18/03/2017)

João Mateus

Sem dúvida uma das melhores , senão a melhor,  discrição do que era Portugal até ao 25 de Abril.

 

 

 

Neste filme a preto e branco, pintado de cinzento para dar cor, podia observar-se o mundo português continental a partir de uma rua. O resto do mundo não existia, estávamos orgulhosamente sós

Anda por aí gente com saudades da velha portugalidade. Saudades do nacionalismo, da fronteira, da ditadura, da guerra, da PIDE, de Caxias e do Tarrafal, das cheias do Tejo e do Douro, da tuberculose infantil, das mulheres mortas no parto, dos soldados com madrinhas de guerra, da guerra com padrinhos políticos, dos caramelos espanhóis, do telefone e da televisão como privilégio, do serviço militar obrigatório, do queres fiado toma, dos denunciantes e informadores e, claro, dessa relíquia estimada que é um aparelho de segurança.

Eu não ponho flores neste cemitério.

Nesse Portugal toda a gente era pobre com exceção de uma ínfima parte da população, os ricos. No meio havia meia dúzia de burgueses esclarecidos, exilados ou educados no estrangeiro, alguns com apelidos que os protegiam, e havia uma classe indistinta constituída por remediados. Uma pequena burguesia sem poder aquisitivo nem filiação ideológica a rasar o que hoje chamamos linha de pobreza. Neste filme a preto e branco, pintado de cinzento para dar cor, podia observar-se o mundo português continental a partir de uma rua. O resto do mundo não existia, estávamos orgulhosamente sós. Numa rua de cidade havia uma mercearia e uma taberna. Às vezes, uma carvoaria ou uma capelista. A mercearia vendia açúcar e farinha fiados. E o bacalhau. Os clientes pagavam os géneros a prestações e quando recebiam o ordenado. Bifes, peixe fino e fruta eram um luxo. A fruta vinha da província, onde camponeses de pouca terra praticavam uma agricultura de subsistência e matavam um porco uma vez por ano. Batatas, peras, maçãs, figos na estação, uvas na vindima, ameixas e de vez em quando uns preciosos pêssegos. As frutas tropicais só existiam nas mercearias de luxo da Baixa. O ananás vinha dos Açores no Natal e era partido em fatias fininhas para render e encharcado em açúcar e vinho do Porto para render mais. Como não havia educação alimentar e a maioria do povo era analfabeta ou semianalfabeta, comia-se açúcar por tudo e por nada e, nas aldeias, para sossegar as crianças que choravam, dava-se uma chucha embebida em açúcar e vinho. A criança crescia com uma bola de trapos por brinquedo, e com dentes cariados e meia anã por falta de proteínas e de vitaminas. Tinha grande probabilidade de morrer na infância, de uma doença sem vacina ou de um acidente por ignorância e falta de vigilância, como beber lixívia. As mães contavam os filhos vivos e os mortos, era normal. Tive dez e morreram-me cinco. A altura média do homem lusitano andava pelo metro e sessenta nos dias bons. Havia raquitismo e poliomielite e o povo morria cedo e sem assistência médica. Na aldeia, um João Semana fazia o favor de ver os doentes pobres sem cobrar, por bom coração.

Amortalhado a negro, o povo era bruto e brutal. Os homens embebedavam-se com facilidade e batiam nas mulheres, as mulheres não tinham direitos e vingavam-se com crimes que apareciam nos jornais com o título Mulher Mata Marido com Veneno de Ratos. A violação era comum, dentro e fora do casamento, o patrão tinha direito de pernada, e no campo, tão idealizado, pais e tios ou irmãos mais velhos violavam as filhas, sobrinhas e irmãs. Era assim como um direito constitucional. Havia filhos bastardos com pais anónimos e mães abandonadas que se convertiam em putas. As filhas excedentárias eram mandadas servir nas cidades. Os filhos estudiosos eram mandados para o seminário. Este sistema de escravatura implicava o apartheid. Os criados nunca dirigiam a palavra aos senhores e viviam pelas traseiras. O trabalho infantil era quase obrigatório porque não havia escolaridade obrigatória. As mulheres não frequentavam a universidade e eram entregues pelos pais aos novos proprietários, os maridos. Não podiam ter passaporte nem sair do país sem autorização do homem. A grande viagem do mancebo era para África, nos paquetes da guerra colonial. Aí combatiam por um império desconhecido. A grande viagem da família remediada ao estrangeiro era a Badajoz, a comprar caramelos e castanholas. A fronteira demorava horas a ser cruzada, era preciso desdobrar um milhão de autorizações, era-se maltratado pelos guardas e o suborno era prática comum. De vez em quando, um grande carro passava, de um potentado veloz que não parecia sujeitar-se à burocracia do regime que instituíra uma teoria da exceção para os seus acólitos. O suborno e a cunha dominavam o mercado laboral, onde não vigorava a concorrência e onde o corporativismo e o capitalismo rentista imperavam. Salazar dispensava favores a quem o servia. Não havia liberdade de expressão e o lápis da censura aplicava-se a riscar escritores, jornalistas, artistas e afins. Os devaneios políticos eram punidos com perseguição e prisão. Havia presos políticos, exilados e clandestinos. O serviço militar era obrigatório para todos os rapazes e se saíssem de Portugal depois dos quinze anos aqui teriam de voltar para apanhar o barco da soldadesca. A fé era a única coisa que o povo tinha e se lhe tirassem a religião tinha nada. Deus era a esperança numa vida melhor. Depois da morte, evidentemente.

 

(Transcrito de Estátua de Sal)

 

 

26
Out16

PORTUGAL O PAÍS DO TENDENCIALMENTE

João Mateus

 

Em Portugal a SAÙDE é tendencialmente gratuita, a EDUCAÇÃO é tendencialmente gratuita, etc, etc.

Eu percebo que essas soluções derivam do facto de ter havido uma revolução que ficou a meio e foi preciso chegar a uma solução de compromisso e aquilo que, eventualmente seria para ser uma coisa acabou por ser outra isto é, quer o peixe quer a carne acabaram por não ser nem carne nem peixe.

Passados mais de 40 anos será que não era altura de nos decidirmos por o peixe passar a ser peixe e a carne passar a ser carne?

O que é que eu quero dizer com isto?

Quer dizer que devemos decidir se continuamos como estamos isto é, nada é efectivamente gratuito, mas co-pago (a despesa divide-se entre o cidadão e o Estado) ou se queremos que umas coisas sejam gratuitas (saúde, alguns níveis da educação, etc) e outras pagas. Isto é se há necessidades, umas delas próprias, outras impostas pelo Estado, que devem, ou não, ser gratuitas.

Porque a noção que tenho é que como estamos é uma confusão pegada, é tudo a reclamar (com ou sem razão) primeiro contra os políticos (que, segundo a voz corrente, são todos uns malandros, porque não fazem nenhum ou uns gatunos) e depois contra o próprio Estado comparando-nos com países que não têm a ver com o nosso quer do ponto de vista económico quer da própria organização jurídica.

É certo que, por qualquer razão que me escapa os portugueses (pelo menos desde que me conheço) nunca foram muito propensos a informar-se o que, para mim é, digamos esquisito, pois fui “criado” por um padrinho ex-combatente da primeira Guerra Mundial que, desde muito cedo me “acostumou” a ler tudo o que me aparecesse à mão, sobretudo jornais. Mas também reconheço que é extremamente dificil num país,onde reina a confusão que tenho vindo a referir, mesmo tentando manter-nos informados, perceber onde começam e acabam os nossos direitos e deveres.

Mas até para decidirmos, o que queremos temos que nos lembrar o custo/benefício das coisas e, quando se fala de custos (impostos) os portugueses fogem disso como o diabo da cruz.

Este post acabou, eventualmente, por sair confuso mas onde reina tanta confusão, se calhar era muito dificil ser mais mais claro.

VIVAM BEM E SEJAM FELIZES!

 

 

26
Out16

Os problemas da Democracia

João Mateus

Nós, com tantos problemas em “casa”, andamos muito preocupados com o que acontece no Brasil, com a burka, com os refugiados (por acaso, com esses até percebo) mas não vemos que o problema profundo é mesmo da Democracia (este tipo de democracia) ou a falta dela, que produz estes e outros tipo de “fenómenos”.

 

Não tenho muitas ilusões que posso mudar o mundo, mas tenho a certeza que posso tentar mudar o meu mundo – Portugal.

 

Ao contrário do que possa parecer, não pretendo vender a ninguém as minhas ideias mas tenho profunda convicção delas e lutarei por elas com unhas e dentes.

 

E, embora isso não queira dizer que me alheie de tudo o que se passa lá fora, não desistirei de o fazer e fá-lo-ei enquanto tiver força , autonomia financeira (que é muito importante), mãos, olhos e boca para isso!

 

Por isso não estranhem a minha forma de ser e de estar e, quando não se sentirem bem na minha companhia, façam favor!

 

Mais sobre mim

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Lema do Blog

Pra melhor está bem...está bem. Pra pior já basta assim!

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2006
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2005
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D

O Crónicas no Facebook