Pessoas que gostam disto

Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011

A propósito da "geração sem remuneração"

 

Eis o que escrevi num mail que me mandaram sobre o assunto:

 

 

Será realmente verdade?

 

Esta geração. de facto, está num beco sem saída, mas também contribuiu muito para isso, esquecendo que é preciso fazer pela vida!

 

Compraram os sonhos que lhes foram vendendo  de que era possivel cada um ser o seu próprio patrão, ter a própria casa, etc.

 

E quem começou a vender-lhes esses sonhos?

 

A geração que fez a revolução? Não senhor, foi um senhor chamado Cavaco, que hoje é só o Presidente da Republica e que, se bem me lembro, ate foi o inventor dos recibos verdes, pelo menos na Função Publica!

 

Alhearam-se de tudo e mais alguma coisa.

 

Lutas? Greves? Que era isso?

 

O que era preciso era ter sucesso na vida, ter tudo sem lutar por nada!

 

Nós também tivemos culpa, é certo, ou pelo menos alguns de  nós, o que era preciso era dar aos meninos os ténis de marca, as play stations, depois o carro e, por fim, quando alguns saiam de casa ainda se lhes pagava a renda, ao contrario dos nossos pais que nos puseram a trabalhar, muitos com onze e doze anos!

 

Esta burguesia bem instalada, tipo José Manuel Fernandes, e outros que tem a mania de nos medir a todos por eles próprios, nunca soube, nem nunca saberá, de facto, o que foram os anos de fascismo em Portugal e, por isso, nunca perceberá, o nosso desejo de liberdade e de uma vida melhor.

 

Eu, que sou dessa geração que ele critica, pergunto-me, no entanto. que mal terei feito eu a Deus para ter em casa dois "perfeitos exemplares" daqueles que ele chama de espoliados e para agora, estar eventualmente a acontecer-me o mesmo com o meu pai que tem uma reforma de miséria ( a tal que os tais espoliados de que fala diz que poderão vir a ter) e não pode pagar um lar quando dele precisar.

 

Vão todos mas é pra um sitio que eu cá sei.

 

 

 

João Mateus

 

 

 

Tudo o que espoliámos à "geração sem remuneração"

por José Manuel Fernandes a Sexta-feira, 4 de Fevereiro de 2011 às 20:32

Para uns terem "direitos adquiridos" para sempre, outros ficaram sem direitos nenhuns: os mais novos, os nossos filhos.

Quando o FMI chegou pela segunda vez a Portugal, em 1983, eu tinha 26 anos. Num daqueles dias de ambiente pesado, quando havia bandeiras pretas hasteadas nos portões das fábricas da periferia de Lisboa, quando nos admirávamos com ser possível continuar a viver e a trabalhar com meses e meses de salários em atraso, almocei com um incorrigível optimista no Martinho da Arcada. Nunca mais me esqueci de uma sua observação singela: "Já reparaste como, apesar de todos os actuais problemas, a nossa geração vive melhor do que as dos nossos pais? Tenta lembrar-te de como era quando eras miúdo..."

Era verdade: a minha geração viveu e vive muito melhor do que a dos seus pais. E eles já viveram melhor do que os pais deles. Mas quando olho para a geração dos meus filhos, e dos que são mais novos do que eles, sinto, sei, que já não vai ser assim. E não vai ser assim porque nós estragámos tudo - ou ajudámos a estragar tudo. Talvez aqueles que são um bocadinho mais velhos do que eu, os verdadeiros herdeiros da "geração de 60", os que ocuparam o grosso dos lugares do poder nas últimas três décadas, tenham um bocado mais de responsabilidade. Mas ninguém duvide que o futuro que estamos a deixar aos mais novos é muito pouco apetecível. E que o seu presente já é, em muitos aspectos, insuportável.

Começámos por lhes chamar a "geração 500 euros", pois eram licenciados e muitos não conseguiam empregos senão no limiar do salário mínimo. Agora é ainda pior. Quase um em cada quatro pura e simplesmente não encontram emprego (mais de 30 por cento se tiverem um curso superior). Dos que encontram, muitos estão em "call centers", em caixas de supermercados, ao volante de táxis, até com uma esfregona e um balde nas mãos apesar de terem andado pela Universidade e terem um "canudo". Pagam-lhes contra recibos verdes e, agora, o Estado ainda lhes vai aplicar uma taxa maior sobre esse muito pouco que recebem. Vão ficando por casa dos pais, adiando vidas, saltitando por aqui e por ali com medo de compromissos.

Há 30 anos, quando Rui Veloso fixou um estereótipo da minha geração em "A rapariguinha do Shopping", a letra do Carlos Tê glosava a vaidade de gente humilde em ascensão social, fosse lá isso o que fosse: "Bem vestida e petulante/Desce pela escada rolante/Com uma revista de bordados/Com um olhar rutilante/E os sovacos perfumados/.../Nos lábios um bom batom/Sempre muito bem penteada/Cheia de rimel e crayon..."

Hoje, quando os Deolinda entusiasmam os Coliseus de Lisboa e do Porto, o registo não podia ser mais diferente: "Sou da geração sem remuneração/E não me incomoda esta condição/Que parva que eu sou/Porque isto está mal e vai continuar/Já é uma sorte eu poder estagiar..." Exacto: "Já é uma sorte eu poder estagiar", ou mesmo trabalhar só pelo subsídio de refeição, ou tentar a bolsa para o pós-doc depois de ter tido bolsa para o doutoramento e para o mestrado e nenhuma hipótese de emprego. Sim, "Que mundo tão parvo/Onde para ser escravo é preciso estudar..."

É a geração espoliada. A geração que espoliámos.

Sem pieguices, sejamos honestos: na loucura revolucionária do pós-25 de Abril, primeiro, depois na euforia da adesão à CEE, por fim na corrida suicida ao consumo desencadeada pela adesão à moeda única e pelos juros baixos, desbaratámos numa geração o rendimento de duas gerações. Talvez mais. As nossas dívidas, a pública e a privada, já correspondem a três vezes o produto nacional - e não vamos ser nós a pagá-las, vamos deixá-las de herança.

Quisemos tudo: bons salários, sempre a subir, e segurança no emprego; casa própria e casa de férias; um automóvel para todos os membros da família; o telemóvel e o plasma; menos horas de trabalho e a reforma o mais cedo possível. Pensámos que tudo isso era possível e, quando nos avisaram que não era, fizemos como as lapas numa rocha batida pelas ondas: enquistámos nas posições que tínhamos alcançado. Começámos a falar de "direitos adquiridos". Exigimos cada vez mais o impossível sem muita disposição para darmos qualquer contrapartida. Eram as "conquistas de Abril".

Veja-se agora o país que deixamos aos mais novos. Se quiserem casa, têm de comprá-la, pois passaram-se décadas sem sermos capazes de ter uma lei das rendas decente: continuamos com os centros das cidades cheios de velhos e atiramos os mais novos para as periferias. Se quiserem emprego, mesmo quando são mais capazes, mesmo quando têm muito mais formação, ficam à porta porque há demasiada gente instalada em empregos que tomaram para a vida. Andaram pelas Universidades mas sabem que, nelas, os quadros estão praticamente fechados. Quando têm oportunidade num instituto de investigação, dão logo nas vistas, mas são poucas as oportunidades para tanta procura. Pensaram ser professores mas foram traídos pela dinâmica demográfica e pela diminuição do número de alunos. Sonharam com um carreira na advocacia, mas agora até a sua Ordem se lhes fecha. Que lhes sobra? As noites de sexta-feira e pensarem que amanhã é outro dia...

E observe-se como lhes roubámos as pensões a que, teoricamente, um dia teriam direito: a reforma Vieira da Silva manteve com poucas alterações o valor das reformas para os que estão quase a reformar-se ao mesmo tempo que estabelecia fórmulas de cálculo que darão aos jovens de hoje reformas que corresponderão, na melhor das hipóteses, a metade daquelas a que a geração mais velha ainda tem direito. Eles nem deram por isso. Afinal como poderia a "geração 'casinha dos pais'" pensar hoje no que lhe acontecerá daqui a 30 ou 40 anos?

Esta geração nunca se revoltará, como a geração de 60, por estar "aborrecida", ou "entediada", com o progresso "burguês". Esta geração também não se mobilizará porque... "talvez foder". Mas esta geração, que foi perdendo as ilusões no Estado protector - ela sabe muito bem como está desprotegida no desemprego, por exemplo... -, habituou-se também a mudar, a testar, a arriscar e, sobretudo, a desconfiar dos "instalados".

Esta geração talvez já tenha percebido que não terá uma vida melhor do que a dos seus pais, pelo menos na escala que eles tiveram relativamente aos seus avós. Por isso esta geração não segue discursos políticos gastos, nem se deixa encantar com retóricas repetitivas, nem acredita nos que há muito prometem o paraíso.

Por isso esta geração pode ser mobilizada para o gigantesco processo de mudança por que Portugal tem de passar - mais do que um processo de mudança, um processo de reinvenção. Portugal tem de deixar de ser uma sociedade fechada e espartilhada por interesses e capelinhas, tem de se abrir aos seus e, entre estes, aos que têm mais ambição, mais imaginação e mais vontade. E esses são os da geração "qualquer coisa" que só quer ser "alguma coisa". Até porque parvoíce verdadeira é não mudar, e isso eles também já perceberam...

O grupo musical "Deolinda", lançou uma canção que, do dia para a noite, se transformou num êxito e num hino da juventude.

Deolinda - Parva que sou
Música e letra: Pedro da Silva Martins

Sou da geração sem remuneração
e não me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!
Porque isto está mal e vai continuar,
já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração 'casinha dos pais',
se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou
Filhos, maridos, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração 'vou queixar-me pra quê?'
Há_ alguém bem pior do que eu na TV.
Que parva que eu sou!
Sou da geração 'eu já não posso mais!'
que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

publicado por João Mateus às 13:01
link do post | comentar | favorito
|
1 comentário:
De Dylan a 23 de Fevereiro de 2011 às 14:36
Da geração mais envelhecida da Europa que vive miseravelmente no centro das grandes cidades à geração "à rasca", dos 500 euros, que vive em casa dos pais; da geração da 4ª classe à geração das múltiplas licenciaturas; da geração da verdadeira música de intervenção de personagens como Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira à "geração parva", dos Deolinda, que nunca se mobilizou para nada a não ser para o comodismo cívico e político. Pela primeira vez nas vossas vidas, berrem, revoltem-se, exerçam o direito de cidadania, mas façam-no por todas as gerações, pelos excluídos, por aqueles que não têm um canudo, pelos desempregados, pelos trabalhadores precários e os explorados pelo patronato.

Comentar post

Lema do Blog

Pra melhor está bem...está bem. Pra pior já basta assim!

Mais sobre Mim

Projecto Esperança

Outubro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
11
12
13
14
15
16
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts Recentes

Os incêndios em Portugal

HOJE VAMOS FALAR DE POLÍT...

OU HÁ MORALIDADE OU COMEM...

A ESCRAVATURA MODERNA

RESPONSABILIDADE POLÍTICA...

EU, PECADOR, ME CONFESSO!

"Tão felizes que nós éram...

PORTUGAL O PAÍS DO TENDEN...

Os problemas da Democraci...

Os argumentos da direita ...

Arquivos

Outubro 2017

Setembro 2017

Julho 2017

Junho 2017

Março 2017

Outubro 2016

Junho 2015

Dezembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Novembro 2012

Setembro 2012

Julho 2012

Junho 2012

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Junho 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Julho 2008

Novembro 2006

Outubro 2006

Julho 2006

Junho 2006

Abril 2006

Março 2006

Janeiro 2006

Setembro 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Links

Viagens na Nossa Terra
Pretextos...
Ir até ao Alentejo
A Gazeta Saloia
Coutinho Afonso
Peralcovo

O Crónicas no Facebook

blogs SAPO

subscrever feeds